14 de janeiro de 2012

Fragmentos da Primavera




Escrever é desnudar a alma. Colocá-la a mostra por meio de palavras que servem assim de espelho e, talvez, de espelho do outro. Assim, nos encontramos por meio de palavras, frases, parágrafos, encontramos a nós mesmo e aos outros através de histórias que tecem sentimentos.
A Primavera é a estação do ano que, no hemisfério sul, inicia-se em setembro e termina em dezembro, depois do Inverno, antes do Verão. A época do ano onde florescem esperanças, de todos os cheiros e cores. É assim como se o sentimento tomasse conta de tudo, colorindo aos poucos o céu, as plantas, as flores, a nós. A mim a primavera significou um pouco de tudo isso e, também, a reconciliação com as palavras. Ou melhor, com o amor, mesmo que ele tenha durado apenas uma estação.


I

Janelas. Elas me exercem um certo fascínio, as mulheres. Mas não muito altas, gosto delas a uma distância que não se perca os detalhes, as janelas. Ela se mexeu na cama, abriu os olhos vermelhos e ainda sonolentos, outra vez me surpreendendo com a cara na janela. Ela não precisou me censurar para que logo eu voltasse para seu lado. Eu gosto assim, bem perto, quase dentro dela, de forma a nos confundir e mal sabermos onde começa uma ou termina a outra.

Na cozinha também tem uma janela e dela só dá pra olhar o apartamento do outro lado. Um senhor branquela goma minuciosamente sua camisa branca, enquanto pensa nas viagens que não fez. Ele lembra que um dia teve 20 anos, que teve sonhos e os trocou por uma carreira que nunca decolou como pensava. No outro cômodo a mulher pensa que deveria ter um emprego, um jardim e também um cachorro. Ela ainda tem muitos sonhos, a maioria com cheiro de retrato guardado.

O aroma de café chega até a sala.

- Estou com saudade! – ela diz do sofá.

- De mim? – eu pergunto para ter certeza, terminando de preparar nosso café.

- Sim. – ela responde simplesmente.

A surpreendo com os olhos na parede e com o espírito muito além disso e, por breves minuto, eu a perco para as suas dolorosas lembranças, que ainda não cicatrizaram. Quando ela volta ofereço a xícara de café. Ela me vê como se eu tivesse acabado de chegar, com olhos de saudade.

Na sala tem uma janela ainda maior e dela eu consigo ver o céu e penso na vida pra levar, nas coisas por fazer e na minha falta de vontade de mover um músculo sequer dali. O cheiro dela atinge as minhas células aumentando ainda mais minha letargia. Quando o corpo dela toca o meu, muito de leve, quase como um sopro, eu já esqueci da janela, do que está para além dela e de para onde eu iria aquela tarde. Porque quando ela me olha com aqueles olhos de tempestade eu me perco neles sem saber se ainda há uma janela por onde escapar.

1 comentários:

Ra.S disse...

Achei.. lindíssimo.

Um desafio.

 
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