17 de janeiro de 2012 0 comentários

Fragmentos da Primavera

II

Se os poetas fossem contar a nossa história diriam: E no início tudo era o caos, a ausência e a solidão. De um lado havia dor, de outro a escuridão, e Deus disse: faça-se a luz. Então os meus olhos encontraram os seus.

III


Se o ser humano não tivesse mania de querer consertar o mundo ele não estaria assim caindo aos pedaços e, talvez, o amor durasse uma centena de anos, como deveria ser. Mas essa essência humana que faz de nós a cobaia de nossas próprias experiências enche o mundo de parafernálias e o amor de subterfúgios. E no final da vida você já nem sabe se aquele embrulho na barriga é a presença do ser amado o fast food que não caiu bem.

IV


Há qualquer coisa no seu sorriso que me tira de órbita. Mais tarde, anos luz daqui me acharão, quem sabe!? E talvez perguntarão: como diabos te perdeste de nós!? Foi um olhar, bastou um olhar!


V


Eu vinha nervosa pela rua ensaiando o que diria, aquela hora, quando ela abrisse a porta.

- Não consigo dormir. E isso já tem dois dias.

Ela me abraçaria sem palavras e me levaria para o sofá. Pousaria minha cabeça entre seus seios e logo eu ouviria as batidas compassadas do seu coração.

Chove em cima da minha cabeça, o pranto dela lava a minha tristeza.

Quando afinal cheguei à porta ela não se abriu.

14 de janeiro de 2012 1 comentários

Fragmentos da Primavera




Escrever é desnudar a alma. Colocá-la a mostra por meio de palavras que servem assim de espelho e, talvez, de espelho do outro. Assim, nos encontramos por meio de palavras, frases, parágrafos, encontramos a nós mesmo e aos outros através de histórias que tecem sentimentos.
A Primavera é a estação do ano que, no hemisfério sul, inicia-se em setembro e termina em dezembro, depois do Inverno, antes do Verão. A época do ano onde florescem esperanças, de todos os cheiros e cores. É assim como se o sentimento tomasse conta de tudo, colorindo aos poucos o céu, as plantas, as flores, a nós. A mim a primavera significou um pouco de tudo isso e, também, a reconciliação com as palavras. Ou melhor, com o amor, mesmo que ele tenha durado apenas uma estação.


I

Janelas. Elas me exercem um certo fascínio, as mulheres. Mas não muito altas, gosto delas a uma distância que não se perca os detalhes, as janelas. Ela se mexeu na cama, abriu os olhos vermelhos e ainda sonolentos, outra vez me surpreendendo com a cara na janela. Ela não precisou me censurar para que logo eu voltasse para seu lado. Eu gosto assim, bem perto, quase dentro dela, de forma a nos confundir e mal sabermos onde começa uma ou termina a outra.

Na cozinha também tem uma janela e dela só dá pra olhar o apartamento do outro lado. Um senhor branquela goma minuciosamente sua camisa branca, enquanto pensa nas viagens que não fez. Ele lembra que um dia teve 20 anos, que teve sonhos e os trocou por uma carreira que nunca decolou como pensava. No outro cômodo a mulher pensa que deveria ter um emprego, um jardim e também um cachorro. Ela ainda tem muitos sonhos, a maioria com cheiro de retrato guardado.

O aroma de café chega até a sala.

- Estou com saudade! – ela diz do sofá.

- De mim? – eu pergunto para ter certeza, terminando de preparar nosso café.

- Sim. – ela responde simplesmente.

A surpreendo com os olhos na parede e com o espírito muito além disso e, por breves minuto, eu a perco para as suas dolorosas lembranças, que ainda não cicatrizaram. Quando ela volta ofereço a xícara de café. Ela me vê como se eu tivesse acabado de chegar, com olhos de saudade.

Na sala tem uma janela ainda maior e dela eu consigo ver o céu e penso na vida pra levar, nas coisas por fazer e na minha falta de vontade de mover um músculo sequer dali. O cheiro dela atinge as minhas células aumentando ainda mais minha letargia. Quando o corpo dela toca o meu, muito de leve, quase como um sopro, eu já esqueci da janela, do que está para além dela e de para onde eu iria aquela tarde. Porque quando ela me olha com aqueles olhos de tempestade eu me perco neles sem saber se ainda há uma janela por onde escapar.

1 de maio de 2011 3 comentários

O que a chuva traz, a chuva leva.





O que a chuva traz, a chuva leva.

Para a menina do outro lado da rua, mais uma confissão.

Chovia muito, mas dentro de mim era como se o céu estivesse azul e o sol com aquele brilho de sete da manhã. Eu me abrigava debaixo de um daqueles toldos de uma loja qualquer quando ela se pôs ao meu lado, ainda ofegante pela corrida que certamente fizera até ali. Enquanto ela se ocupava em verificar o estrago que água fizera a suas roupas e ao seu cabelo, eu me embevecia silenciosamente com a sua presença sentindo um quase prazer pelo alarde que meu corpo fazia só por tê-la por perto. Segundos antes de ela virar em minha direção, e me reconhecer, seu cheiro me invadiu como cheiro de café ao amanhecer, como que me convidado a tragá-la, e foi inevitável que o sorriso no meu rosto se alargasse.

- Não acredito que te encontro logo aqui! - ela exclamou surpresa.

- A chuva te trouxe pra mim. – fiz uma metáfora que prontamente ela ignorou.

- Sumistes. Não tem mais tempo para uma amiga? - rebateu queixosa.

- Pra você? Sempre. - falei com convicção.

- Percebo, toda vez que tento falar contigo. – ela e a costumeira ironia.

- Oh, minha querida, é o destino que teima em nos separar. – falei quase como um suspiro.

Ela nada disse, mas fez o já conhecido gesto de levantar uma das sobrancelhas, me dizendo silenciosamente que das coisas impossíveis ela já era escolada, mas que aquilo era desculpa pseudo-poética para o meu distanciamento.

- Eu sei, é saudade. – eu continuava a falar como um personagem de um livro não escrito. – Mas é como diz aquela música “Quero que saibas, que me lembro. Queria até que pudesses me ver. És parte ainda do que me faz forte, e pra ser honesto só um pouquinho infeliz.”

Por um instante o ar severo que até agora ela sustentava se desfez, ela queria sorrir, aquele sorriso amargo e triste, do qual me lembrava bem, que queria dizer “nunca poderia te dar o que queres”, mas como se tivesse acabado de lembrar do porque de nosso distanciamento, seu olhar se aprofundou sobre objeto qualquer atrás de mim e eu já sabia que tinha acabado de perdê-la, de novo. Mesmo assim, com aquela calma que me fazia ter a sensação de estar levitando e que nada, nada mesmo, pudesse me atingir, continuei:

- Ou como diz aquela outra: tenho um mundo inteiro pra salvar e pensar em você é kriptonita.

- É, Ludov. – ela balbuciou.

Pensei que aquele seria o momento de dizer o quanto a amava, mas que esse sentimento vinha me machucando a ponto de eu ter que morrer um pouquinho mais, a cada dia, só para estar do seu lado, e que antes que não restasse mais nada eu precisava juntar os meus pedaços e tentar me (re) compor, mas falar aquilo só nos machucaria ainda mais porque eu jamais saberia lhe explicar porque me rasguei no meio para de alguma forma “tê-la”, quando ela fez de tudo para evitar justamente isso.

- É melhor assim! – pensei alto. Era uma confissão que fazia a mim mesma, querendo que ela escutasse.

- O que? – ela perguntou curiosa.

- Longe.

Outra vez a expressão mudou, era como se ela acabasse de ser atingida por um iceberg. Notei que entrara num terreno perigoso, já sabendo onde ele iria dar, e logo desisti de verbalizar sentimentos e resolvi que simplesmente perguntaria sobre ela, mas antes que eu pudesse proferir o clichê “mas e você, como vai?”, ela me disse com o ar distante:

- Esquece, te cuida ai. Um dia te chamo para fumar um cigarro.

E correu. Dessa vez em direção a chuva e, quanto mais ela sumia, sendo carregada pela água, mais a calma se alojava em mim. Pensei comigo “tem certas coisas que era melhor nunca sabermos”. O cheiro dela ainda continuava lá e aquilo aqueceu meu coração, como sempre acontecia, e eu pensei de novo: “tem certas coisas que não se pode viver sem sentir”. Acendi um cigarro e sorri. O que a chuva traz, a chuva leva.

27 de dezembro de 2010 1 comentários

Porque de pilantra e de poeta, temos a dose certa.

Ao Poeta Desconexo.







Sou do tipo sem vergonha que não disfarça para olhar o que é bonito. Aquele que diz que vai na esquina comprar cigarros e volta três dias depois sem a carteira de cigarro, com um sorriso sacana e uma história mirabolante de seqüestro relâmpago. Sou descuidado, a ponto de deixar cheiro de mulher pela roupa, pelos cabelos e sequer me importar se você vai sentir. Sou exigente, porque quero tudo limpo, tudo pronto e você cheirosa pra mim. Sou preguiçoso a ponto de me esparramar no sofá ao meio dia e por lá ficar até acordar e sair outra vez. Um bagunceiro irremediável que joga as roupas pela casa, esperando que você as ache, que espalha os livros pelos móveis, sem deixar que você os tire do lugar, porque só assim sei exatamente onde estão. Sou o pilantra que te deixa preocupada noites a fio, que te deixa dormir sozinha numa madrugada fria.
Mas sou eu também que chego te abraçando forte, já colocando uma das pernas entre as suas, sussurando o quanto és linda e o quanto te quero inteira, bem agora, bem ali. Sou também atencioso a ponto de te acalentar por toda a madrugada, porque você teve um sonho ruim. Sou sensível a ponto de perceber, que aquele seu olhar perdido e suas meias palavras querem dizer insegurança... E é por isso que sou aquele que te diz, com todos os eu´s, os te e os amo, com palavras, com gestos, com olhar com silêncio, o quanto te amo! Ah eu amo! Amo a sua calma, o seu carinho, o seu cuidado, a sua entrega, o seu olhar profundo, a maneira com que morde, me devora e no segundo seguinte pede para ser tragada inteira e de uma vez só, como se de fato pudesse ir assim, numa outra dimensão e depois voltar.
Sou, portanto, o poeta, que te ama, te deseja, te devora para te transformar em palavra sussurrada em meio ao infinito, para que subsista por toda a eternidade eu, tu, nós...

Porque de plilantra e de poeta, tenho a dose certa.

(Ah se existe eu, se existisse tu e se o amor fosse algo mais que uma ilusão...)


14 de dezembro de 2010 0 comentários

A menina do outro lado da rua





Há mais ou menos uma semana, eu voltei a me apaixonar pela menina do outro lado da rua. Digamos que daqui da varanda eu a observe, sempre atenta na janela, como se esperasse alguém. Já existe uma compreensão mútua entre nós, em cada gesto, olhar, canção ou poema que lhe escrevo.
Digo voltei a me apaixonar, porque em uma noite dessas de luar, quando ela estava na janela, de alguma forma inexplicável ela se iluminou para os meus olhos e tive vontade de correr até o outro lado da rua... Veja lá como são as coisas, todos os dias eu a via, a cumprimentava com um menear de cabeça, ela respondia com um gesto, um sorriso ou outro menear de cabeça de acordo com o seu humor, era como qualquer vizinha, como qualquer pessoa, mas veio a lua e tudo mudou...
Quando enfim decidi correr até lá, alguém chegou primeiro, devia ser quem ela tanto esperava porque seu sorriso foi a coisa mais linda que eu havia visto nos últimos tempos. Ela então entrou com esse alguém para dentro da casa e eu fiquei lá, no meio da rua, entre a minha casa e a dela, com aquele gosto amargo de perda...
Voltei para casa, mas ficar em casa me lembrava dela, lembrar dela me fazia olhar para janela, olhar a janela fechada me fazia lembrar de fracasso... Aproveitei a sensação de desconforto de estar em minha própria casa e fui viajar. Passei longos meses viajando, experimentando, pousando em uma cidade e outra, me entregando a corpos desconhecidos, mas a imagem daquela menina, na janela, nunca me saiu da cabeça.
Dentro de mim uma raiva crescente, não conseguia entender como uma simples menina, numa singela janela me impressionara tanto, não havia motivo nenhum para aquela insistência, não havia motivo nenhum para me doer tanto por perder algo que nunca fora meu... Mas ainda assim a imagem dela persistia, como um fantasma a me assombrar...
Um dia eu acordei na beira de uma estrada, as roupas amassadas e sujas, a cabeça doendo como se um trem houvesse passado por cima e um gosto terrível na boca. Eu estava no fundo do poço, longe de casa e nenhum amigo me reconheceria naquele estado lamentável em que me econtrava... Para me livrar de um fantasma, quase me transformei em um e, em vez de raiva, passei a sentir pena de mim, que como uma criança mimada não havia achado jeito de lidar com a perda...
Mesmo me dando conta disso tudo, ainda continuava na mesma, tentando achar o caminho de volta, num estado tão deplorável que ninguém conseguia ficar perto de mim por muito tempo... Nem o carteiro, meu amigo de longa data, parava mais para me cumprimentar... Mais tarde ele me contou que eu havia espezinhado seus sentimentos, desdenhado do amor e sentenciado sua desgraça... Nem eu olharia mais em minha própria cara, não posso culpá-lo.
Numa noite sem lua, que haviam se tornado minhas preferidas, enquanto meu olhar perdia-se no horizonte, uma mulher que mal lembro o nome, o cheiro ou gosto, falou-me num tom profundo:
- Deve haver algo mais por trás de tanta amargura, tanto desprezo, tanto desdém... deve haver um coração sufocado por ae...
Embora eu tenha gargalhado em sua cara, a expulsado do quarto como se expulsa um cachorro, aquelas palavras me incomodaram profundamente, tanto que no dia seguinte, sem qualquer bagagem, voltei para casa como havia saído, a pé e só.
Os primeiros dias em casa foram estranhos. Tudo me parecia distante, frio e pouco receptivo. Eu evitava a varanda, o sofá, o violão, os livros e tudo o mais que me remetesse... sentimentos. Com o tempo fui me reacostumando, retomando minhas coisas, reconquistando os amigos e deixando o sentimento entrar, mesmo que sorrateiro, pela porta da cozinha...
Ainda estou nesse processo, o Carteiro voltou a me visitar e fui ao encontro do Poeta, quando de lá voltei, abri as janelas, desenterrei os livros de poesia e fiz as pases com violão... E foi assim que em uma tarde, entre um Baudelaire e um Neruda ela surgiu na janela, ou eu a notei na janela, como se nunca houvesse saído de lá... Ela estava ainda mais linda do que me lembrava, mas mais inquieta... Eu a cumprimentei e ela me sorriu, um riso nervoso, mas continuou a olhar a rua e aquilo, em absoluto, me incomodou.
Depois disso, quase todas as tardes nos encontrávamos, ela de um lado da rua, em sua eterna espera, eu de outro, me acostumando com a vida, com as pessoas, com a perda... Ela sempre me tentava sorrir, mesmo quando não estivesse bem. Eu, por outro lado, sempre tentava parecer bem, mesmo não conseguindo sorrir... Assim nos apoiávamos, a meia distância, para que não sobrasse a solidão, nem de um lado, nem de outro...
E são nos dias de lua que quase não consigo controlar a vontade de atravessar a rua e pegá-la no colo, dizer que ela não precisa mais esperar porque eu posso tentar ser tudo o que ela precisa... Mas não, isso não dura muito, pois me dou conta de que ela espera por algo muito específico e eu já não espero mais nada e talvez por isso queira me agarrar a ela, como uma tábua de salvação... Na dúvida fico onde estou, cada dia mais acostumando-me comigo, com meus sonhos, minhas vontades... que na verdade, nunca saíram de mim, estavam apenas sufocados.


A menina do outro lado da rua, com carinho,

Poeta Desconexo.
1 de dezembro de 2010 0 comentários

As lágrimas de dezembro, que escorrem janela abaixo

Dezembro chegou e com ele as chuvas, por isso faz o que se pode chamar de frio, nessas terras escaldantes. É noite e o céu está vermelho, carregado de nuvens pesadas de lágrimas, que é como costumo definir a chuva. Estou na varanda, violão, uma xícara de café, um Baudelaire - que descobri perdido por uma das prateleiras - e esse gato preto, encolhido perto da porta, que a dois dias me faz companhia, sorrateiro.
Meu espírito, calmo e tranquilo como costumava ser... não me inquieta a solidão ou silêncio, pelo contrário, os aprecio infinitamente. Mas muito embora não me incomode, e as janelas continuem abertas a espera de uma brisa, é justamente nessas noites pseudo-frias que sinto falta de um corpo para me esquentar... Não só um corpo, porque isso é muito fácil de arrumar, mas um espírito que acompanhe o meu... De um par de olhos atentos enquanto leio, escrevo, tento tocar... De uma nuca na qual eu pudesse me perder... De um abraço onde eu pudesse me encontrar...
Acabei de receber uma carta daquela moça de não sei onde, que escorracei do quarto e me disse boas verdades... Ela me pede que eu lhe entregue meu coração. Como lhe explico que já não há possibilidade de dispor daquilo que já não é nosso!?
Gostar é sempre um perigo, quando você menos espera você já gosta tanto que quer dar outro nome para isso... como se o gostar não coubesse mais em si... No fim das contas só me resta abrir mais as janelas, na esperança de que sopre uma brisa diferente e eu esqueça esse gostar, antes que ele já não caiba mais em si e se transmude em... amor.


28 de novembro de 2010 0 comentários

Um pouquinho de mim

Acordei tarde, dolorid e ainda beirando a exaustão. Os cabelos revoltos como a muito não os via, mas preferi deixar assim... me olhei no espelho por alguns segundos: diferente. Ver e não se reconhecer, de repente tive saudade de mim, do que eu via no espelho e nunca gostei. Tive saudade da calma, da persistência, da fé nas pessoas, no mundo, saudade dos sonhos e de correr atrás deles como se estivesse bem aqui, bem ali, ao meu alcance...
Disso tudo, quase nada restou... E de repente, fiquei tão triste como se tivesse acabado de perder alguém importante e foi um vazio tão grande que parecia mastigar as minhas entranhas...
Não há mais volta isso de crescer, amadurecer, se aborrecer, magoar, se ferir... Vamos enterrando o melhor de nós impiedosamente, jogando os sonhos em qualquer buraco e os escondendo com mais e mais areia...
Já sei do que tanto sinto falta nessa casa vazia: sou eu. Sou eu que não entro com pressa, com as roupas sujas, a cabeça fervilhando, o coração pulsante e a certeza persistente de estar fazendo a coisa certa... Sou eu que não faço um café no fim da tarde, espalhando livros pela sala, pelo corredor, tropeçando em tudo e me repreendendo interiormente, como se repreendesse uma criança travessa, a respeito daquela bagunça toda...
Sou eu que não encho mais a casa de amigos, arrisco escrever poemas torpes e discursos carregados de sentimento....
Ah o sentimento! Sou eu que não escrevo mais cartas apaixonadas, não persigo mais o amor como se fosse a única coisa que valesse a pena em meio a toda essa falta de... tudo!
E é por isso que ninguém mais vem aqui... nenhuma mais consegue entrar pela janela e tomar de conta de toda a casa, mudando os papéis de lugar, me fazendo confundir os tinteiros... Não há ninguém que me ouça enquanto teço teorias mirabolantes sobre as pessoas, os sentimentos e o destino, tão atenta como se entendesse cada palavra, como se sorvesse cada idéia... Nem ninguém que me convide para dormir, ralhando por estar tarde e eu ainda trabalhando, mas quando me deito, também não me deixa dormir porque precisa ser amada, acalentada, mimada ou repreendida...
Não há mais nada além dessa falta de mim.
 
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