No dia seguinte subi a ladeira quase correndo. Estava decidida a entrar no café, pedir alguma coisa nem que fosse para levar, mas assim que avistei você, no meio de toda aquela algazarra do café percebi que aquela manhã seus olhos estavam mais tristes do que de costume. Você se movia rápido e anotava os pedidos com uma impaciência que tive pena da caneta e do papel. Dessa vez não reduzi o passo, tampouco o apressei, em vez disso parei. A sua tristeza me atraía de tal forma que eu não conseguia dar nem mais um passo. Eu nem sei por quanto tempo fiquei ali parada querendo absorver a tua tristeza, porque quando me dei conta seus olhos se encontraram com os meus me assustando de tal forma que dei dois passos para trás. Seu olhar era de puro desdém, não, era de indiferença, na verdade, nem sei, mas eu acho que qualquer coisa que estivesse sentindo você descarregou naquele olhar. Então, em vez de me sentir triste, me senti útil, afinal comigo você não teve que fingir sorriso, paciência ou complacência, você simplesmente me olhou com todo o sentimento que havia em você.Naquele dia cheguei atrasa e nem tomei café.

Depois que eu descobri onde ela trabalha mudei o caminho até o serviço. Agora passo por essa ladeira todos dias para lá no topo dar de cara com os seus olhos sempre atentos aos pedidos, mas com um brilho que não me engana, é tristeza. Subir uma ladeira e caminhar mais três quarteirões do que estava acostumada só para fitar seus olhos por dez segundos, às vezes 20, quando reduzo o passo, é meu mais novo passatempo.
Hoje você estava de cabelos soltos e isso me fez lembrar da primeira vez que a vi, caminhando apressada, cabelos ao vento. Você passou por mim e não me percebeu, e nem poderia, eu era mais uma pessoa a decorar a rua, a se por no seu caminho. Mas o cheiro do seu cabelo fez com que eu te percebesse, com que você ganhasse cor no meio daquela pintura da rotina, pessoas indo e vindo. Ah! O cheiro do teu cabelo deu uma cor tão forte aquele dia.
Teus cabelos soltos me fez lembrar aquele cheiro, não que eu me lembre dele, e isso é uma das coisas que muito lamento, mas lembro da impressão que ele me causou. E por essa impressão novamente tenho vontade de entrar lá, pedir um café e sentir esse cheiro toda vez que você for de lá para cá, com um pedido ou outro. Mas então eu me lembro que com a mudança de rota se eu não correr chego atrasada.
E nessa busca há quem não olhe para o lado. Há quem não perceba a magnitude de momentos simples como um banho de chuva, como poses malucas para uma infinidade de fotos loucas, como músicas toscas a beira mar. Tem gente que não nota que a pessoa do lado talvez queira conversar e tenha boas coisas a falar. Há quem não perceba, num olhar, uma infinidade de promessas, companheirismo, cumplicidade. Há quem não note, que em um abraço é possível ouvir o coração do outro e compartilhar, sua felicidade ou sua dor.
Quem espera por uma só pessoa, talvez não valorize todas as outras que estão ao seu lado. E assim, talvez deixe passar o amor mais sincero, verdadeiro e único: o amor de um amigo.
Preciso escrever. Mas não há nenhum tempo de qualidade, nem uma cadeira confortável, ou uma mente leve, entre todos esses papeis de letras fria e irreais. Entre essa negação de poesia, entre essa correria. Há horas que nem há prazer, pois pensar na mesquinhez do ser humano me tira a criatividade, me sufoca a imaginação.
Os movimentos são os mesmo, as preocupações também, nossas conversas a mesa do bar, que saudade dessas conversas! Saudade de ouvir meus amigos contarem os problemas e ter uma palavra de consolo para eles, mesmo que não fosse nenhuma.
Minhas costas doem. Meu tempo está curtíssimo. O que anda acontecendo no mundo, afinal? Meio por tabela eu ouço a música que agora toca nas rádios. Meio que por acaso tenho notícias dos amigos. Meio que por acaso vou de uma estrofe a outra, mas sem nunca completar o poema...
Mais um cavaleiro tombou e desta vez o golpe veio de onde se menos esperava.
Os olhos cobertos de tristeza, enevoados por uma sombra terrível de mágoa.
Vicioso círculo, quanto asco sinto de você.
Eu deitei de cansada. Mais uma vez estavam me ferindo de morte eu nem sequer conseguia gritar. Sacudi-la e chamá-la por todos os nomes ruins que me vinham a cabeça. Eu apenas me observava deitada, inerte, sem qualquer vestígio de espírito, sem sequer piscar.
Eu devia saber que você não faria diferente. Eu deveria ter lutado mais contra essa vontade alucinante de me entregar. De me expor. Fiquei fraca o suficiente para que você pisasse e depois de usar, jogar fora.
Eu devia saber que você é igual a ela, talvez até pior. Ela pelo menos foi terrivelmente sincera. Você? Se enganou e ainda me enganou por tabela. Me usou para se sentir melhor e ter alguém do seu lado. Foi divertido ter alguém te amando?
Lembro-me de você me falando de traição, confiança, respeito... Que grande piada... O que você acha que é isso? Você não confiou em mim o suficiente para não ter medo de mostrar o que realmente sentia e queria. Não respeitou a única regra que eu havia imposto: seja sincera. Me traiu, sem perdão, quando ousou me fazer acreditar, quando me deixou sonhar, quando me deixou sentir que dali pra frente ia ficar tudo bem, que conseguiríamos... juntas.
Eu ainda te contei o que não consegui contar para mais ninguém. Eu devia saber que ultimamente não se confia em mais ninguém, não se pode amar mais ninguém.
Ontem não controlei a nostalgia rastejante que tomou conta de mim, enquanto eu estava ocupado demais para pensar. Não resisti e reli as cartas que trocamos. Todas as mentiras que eu não só acreditei como ousei sentir. Agora soa tudo tão amargo, porque algo continua a repetir que talvez, naquele dia, talvez, tenha sido de verdade.
E de repente eu me lembro de toda a felicidade que me preenchia só de ouvir tua voz. Depois eu lembro da solidão da tua casa, eu tomando um gole de café enquanto olhava pela janela. Lembro também do supermercado, enquanto eu abria o litro de álcool e te dizia pra confiar em mim e que se minha camisa ficasse manchada iria te matar. Nunca mais vi aquela camisa. Às vezes eu fico pensando que ela ficou na tua casa e que de vez em quando tu vestes e lembra de mim.
Ontem eu vi o olhar do meu amigo perdido. No que o poeta pensa? O que mais o poeta podia querer, quando ali parecia ter tudo que ele precisava? Mas quando as lembranças passam sem pedir licença, entorpecendo os sentidos, você se permite perguntar “por que?”.
Lembrei de quando tu me abraçou em silêncio. Nunca mais senti aquilo. Eu acho que não te amo mais, isso tudo é apenas uma saudade absurda do que um dia você me fez sentir.

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