Ontem não controlei a nostalgia rastejante que tomou conta de mim, enquanto eu estava ocupado demais para pensar. Não resisti e reli as cartas que trocamos. Todas as mentiras que eu não só acreditei como ousei sentir. Agora soa tudo tão amargo, porque algo continua a repetir que talvez, naquele dia, talvez, tenha sido de verdade.
E de repente eu me lembro de toda a felicidade que me preenchia só de ouvir tua voz. Depois eu lembro da solidão da tua casa, eu tomando um gole de café enquanto olhava pela janela. Lembro também do supermercado, enquanto eu abria o litro de álcool e te dizia pra confiar em mim e que se minha camisa ficasse manchada iria te matar. Nunca mais vi aquela camisa. Às vezes eu fico pensando que ela ficou na tua casa e que de vez em quando tu vestes e lembra de mim.
Ontem eu vi o olhar do meu amigo perdido. No que o poeta pensa? O que mais o poeta podia querer, quando ali parecia ter tudo que ele precisava? Mas quando as lembranças passam sem pedir licença, entorpecendo os sentidos, você se permite perguntar “por que?”.
Lembrei de quando tu me abraçou em silêncio. Nunca mais senti aquilo. Eu acho que não te amo mais, isso tudo é apenas uma saudade absurda do que um dia você me fez sentir.
O canto esquerdo da sua barriga, perto do osso que você tanto gosta. O caminho até você. E depois dentro de você. Seus olhos fechados através das lentes. Nossos corpos se movimentando, nossas bocas coladas. O tom dos teus gemidos roucos, entre suplicantes e autoritários. Suas unhas cravejando minhas costas como se fosse uma carícia delicada. O conjunto que faz tua boca entreaberta, teus olhos fechados e tua respiração entrecortada. Teu último gemido antes do teu coração mudar de lugar, agora bem abaixo, bem ao meu alcance. Teus lábios vermelhos depois de gozar. Teu sorriso loucamente demoníaco. Tuas pernas cruzadas para trás, escondendo displicentemente qualquer coisa depois do teu umbigo e um caminho perfeito até teus seios, que insiste em esconder. O jeito alucinante de você se tocar, como se pudesse se fundir em si mesma, tão irritante quanto excitante. Teu cochilo no meu ombro, com a perna direita sobre a minha coxa, num encaixe suave do teu corpo na minha costela direita. Nossa briguinha por coberta. Teus beijos suaves. Teu ciúme milimetricamente calculado. “Eu te amo”. Um sorriso que jamais vi e tampouco vou desvendar.
As pessoas, como formigas, atrapalhadas entram no ônibus e rapidamente vão ocupando os assentos enquanto as outras, apressadas por descansarem a bunda, vêem todas as suas chances de uma viagem mais tranqüila indo por ladeira abaixo. Vai-se em pé, apertado, sendo “acoxado”, meio de lado, ou quase caindo. É tal de fungado na nuca, sem excitação ou palavras bonitas, mas há até quem goste do hálito de hortelã (com a pastilha comprada ali mesmo) que acidentalmente toca a pele que àquela hora já carece de outro banho.
E é uma profusão de pensamentos dentro daquela caixa metálica, que passam mais rápido que as paisagens decoradas que ficam pra trás e que vem logo ali. E pensa-se que o dia foi ruim, que o companheiro fede, ou é feio, ou até daria um bom companheiro. Pensa-se no discurso que vai ouvir ao chegar. No discurso que fará ao partir. Pensa-se em um novo emprego, no namoro desmantelado, nas unhas por fazer.
O idoso recusa o assento, recusa a velhice, o cansaço. Enquanto o muleque abre mais as pernas e se acomoda ainda mais no assento, enquanto o vôvo vai de lá pra cá, de curva em curva. A criança chora porque quer ir sentada, uma mãe envergonha-se, tenta explicar que não dá. Outra mãe rapidamente olha para o lado para ver se alguém ouviu o apelo da criança, que também é o dela, mas ninguém precisa saber. Enquanto a uma agradece, ainda envergonhada, a senhora que se ofereceu para levar a criança, a outra mal agradece o senhor, que mesmo cansado cede o assento para mãe e filho, senta apressado, ralha com a criança a viagem inteira, reclama do cansaço, da falta de espaço, do trânsito, da demora, reclama, reclama, reclama
Enquanto isso o moço dorme, sonha com um carro e dinheiro para gasolina, bate com cabeça no vidro, acorda espantado três paradas depois da sua. Levanta apressado, pede parada implorando para que o motorista pare logo, mas ele só pára dali a meio chão. Dormiu no ponto, perdeu o ponto, foi caminhando para casa enquanto lembrava do dizer da mãe, de que pobre não tem sorte.
Na parada lotada, a chuva emporcalha e desmancha a produção da mona. E meia dúzia pede parada e o motorista, com um humor indefinido, nem pára. E é mais meia hora de espera e é menos meia dúzia pra deixar em casa, a ralhar no ouvido do pobre homem que queria descer ali, que tem poça aqui, que queria ser deixado em casa.
O mundo continua o mesmo, de parada em parada, cobrador te lembrando do troco. É é o pouco espaço, as leis da física, o mau humor, o novo amor, tudo junto na caixa metálica, que te leva pra casa, que te traz, que te leva pro mundo, que continua o mesmo.
O céu vermelho anuncia a chuva noturna. Cansadas as pessoas voltam para casa, fecham suas portas e dão inicio ao seu velho ritual. Elas mal se falam e é uma tal de dor de cabeça ou o mal comportamento do menor.E quando ele só quer descansar ela fala...E fala sobre estar gorda... E fala da vizinha que largou o marido... E fala da casa q precisa de reforma...E ralha comele por estar todo sujo... E reclama que ele não lhe dá atenção.
Do outro lado da rua ele senta no bar pela terceira vez... Ele esqueceu onde mora... Esqueceu o dinheiro da pinga... Esqueceu do banho... Esqueceu de ir para o trabalho... Só a dor de amor que ela ainda não esqueceu...
Na outra rua ele ensina a lição para as crianças enquanto ela faz o jantar. Ele pensa no divórcio, ela em traição. A comida está prontae todos comem em silêncio. As crianças pensam que querem batata-frita, ele pensa nas contas a pagar, ela pensa que quer ir ao cabeleireiro... Nenhuma palavra.
Isso tudo enquanto aquele sujeito franzino espera na parada... Uns dizem que ele espera para assaltar... Outros dizem que ele espera para morrer... Mas ele só espera o último ônibus para começar a trabalhar....
Ainda há quem não tem casa, nem preocupações... Há quem passe o dia dormindo... Há quem fume na escada do prédio... Há quem saia para passear... Há quem não ande correndo... Há, ainda, quem escreva bobagens no meio da noite.
É que toda vez que te vejo com o olhar perdido fico imaginando que tu estás a te dar conta do mundo de insignificâncias no qual me afundei.
Eu me lembro da inocência quase infantil que fez com que eu me entregasse ao desejo louco de experimentar um pouco desse veneno, de saber o que ele tinha de tão irresistível e viciante. Hoje eu digo, sem receios, que eu queria me aproximar e entendê-la. Eu me aproximei do meu próprio fim e entendi que aquele nem de longe é o meu mundo. Mas não se volta atrás e cicatrizes são pra sempre cicatrizes. E hoje, as marcas estão por todo lado. Eu não me importava com toda aquela sujeira e cheiro ruim de banheiro em fim de festa. Eu simplesmente entornava o ultimo gole de qualquer coisa e me resignava com o destino que escolhi para mim, já estava quase me acostumando com tudo isso, mesmo que custasse minha própria consciência e sanidade. Só que ao olhar pra você tive vergonha da sujeira e do mau cheiro e sem te conhecer eu pude ser eu: eu me permiti me importar com a tua falta de esperança, eu quis te mostrar que talvez, na moeda, houvesse um outro lado. E o mais complicado de tudo isso é que parecia que eu, dizia aquelas coisas todas para mim. Eu estou cansada disso tudo. Estou cansada de olhar para o espelho e não me reconhecer. Estou cansada de me ouvir falar o que eu nunca sequer sonhei em dizer. Cansada de me assistir cometendo os atos que eu dizia nunca fazer. Somos diferentes. Somos como peças de um quebra-cabeça, aquelas peças que até parecem iguais, mas são essencialmente diferentes, porque são complementares. Mas você já viu tudo o que eu posso ser. Porque contigo não há reservas, ou encenação. Porque corro o risco de ser ridícula com aqueles meus discursos enfadonhos, meus sonhos socialistas e megalomaníacos, com meu parco romantismo, com minha inútil postura quase tradicionalista (para não dizer machistas). Não há reservas e eu já sei que eu posso te machucar com isso. Confesso que não sei te explicar como tu vens mudando as coisas em mim, é quase como se eu encontrasse com eu mesmas, entende? Nem precisa, as coisas ultimamente, minha querida, estão para serem sentidas, não compreendidas. Por ultimo eu preciso te dizer que a minha única preocupação quanto estou contigo é te fazer sentir tão bem quanto eu me sinto, meu único plano é conseguir passar o máximo de tempo te sentindo, mesmo que para isso tenha q refazer o tempo, meu desejo: Me ensina devagar a reter a tua essência sem aprisioná-la? Eu não consegui chegar nem perto de descrever o quanto já significas pra mim, minha nesga de esperança... Mas mesmo assim tive essa necessidade quase absurda de escrever... E se eu tenho que publicar para q tu consiga “ler”... aqui está...
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